3.4.25

Casca de ovo

 


Par muito raro de vasos de porcelana casca de ovo Rozenburg Den Haag, São as últimas peças de porcelana casca de ovo que sairiam da fábrica, pouco antes de seu encerramento definitivo em Agosto de 1914.
Pintados por Samuel Schellink em Julho de 1914.

Daqui.

Uma resposta da Provedora do Telespectador da RTP

 


Tendo apresentado um protesto pelos termos da entrevista de José Rodrigues dos Santos a Paulo Raimundo, acabo de receber esta resposta:

. Exma Senhora Joana Lopes,

Cerca de 1900 pessoas enviaram-me protestos contra a entrevista feita por José Rodrigues dos Santos a Paulo Raimundo. Bastaria uma queixa para eu lhe dar atenção, mas neste caso foi atingido um número inusitado. O assunto foi debatido na praça pública por diferentes comentadores e jornalistas, com opiniões contraditórias, e ocupou um espaço imenso e intenso nas redes sociais.

Depois de analisar todas as entrevistas desta fase pré-eleitoral, considero que a de Paulo Raimundo foi objetivamente mal sucedida e não permitiu esclarecimentos sobre as posições do PCP. Foi claramente diferente de todas as outras. O jornalista é suficientemente experiente para ter entendido como bordão o “não” que repetidamente Paulo Raimundo usou antes das respostas. Todos teríamos ficado a ganhar se tivesse partido para abordar outros temas em vez de transformar a entrevista num debate sobre uma única questão.

Não faz parte das minhas atribuições, como me foi proposto - ou mesmo exigido - por muitos telespectadores, despedir, abrir processos disciplinares, afastar ou tomar algum tipo de decisão sobre a vida profissional de quem trabalha nesta casa. As minhas funções são, aliás, explicitadas no Estatuto dos Provedores. Mas posso e devo assinalar situações em que considero que o serviço público não foi cumprido. Neste caso, é essa a minha opinião.

O próximo programa Voz do Cidadão é dedicado à série de entrevistas a dirigentes partidários das últimas semanas, contando com a participação de António José Teixeira, José Rodrigues dos Santos e João Adelino Faria.

Com os melhores cumprimentos
Ana Sousa Dias
Provedora do Telespectador

03.04.1926 – Luís Sttau Monteiro



Faria hoje 99. Em jeito de homenagem, uma «Redacção da Guidinha». 

Senhores da política:

Oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua oiçam o que se diz na rua senão qualquer dia estão no olho da rua a ouvir o que se disse na rua.

Jornal, 22.09.1978
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O silêncio dos idiotas úteis

 


«Uma das primeiras medidas das primeiras frenéticas semanas de Trump na Casa Branca foi mandar apagar das publicações das agências públicas dos EUA toda e qualquer referência às alterações climáticas.

Agora, a mira censória apontou para às universidades. A Universidade de Duke, que recebeu 863 milhões de dólaresno último ano, tem os fundos federais em risco. A Johns Hopkins anunciou o despedimento de mais de dois mil funcionários, depois de perder 800 milhões. Uns cortes serão técnicos, outros resultaram de represália política. É o caso da Universidade de Columbia, que perdeu 400 milhões por não ter proibido manifestações de solidariedade para com Gaza.

Foi à boleia de uma nadadora transgénero que Trump congelou 175 milhões destinados à Universidade da Pensilvânia. Um corte com impacto em investigação em saúde pública, ciência fundamental e medicina de ponta.

A administração federal limitou drasticamente as “despesas gerais”, que sustentam edifícios, laboratórios, energia e pessoal técnico, sem os quais a investigação científica é impossível. A Universidade do Estado do Michigan já anunciou que suspendeu um centro de investigação médica por falta de fundos.

A asfixia vai continuar até que todos se curvem ao poder de Trump. Columbia foi a primeira, anunciando que vai alterar o seu código de conduta.

Na sua campanha para o Senado, há quatro anos, J.D. Vance pôs todas as cartas na mesa: “As universidades são o inimigo”. E comparou-as à Matrix: “Muito do que impulsiona a verdade e o conhecimento, tal como o entendemos neste país, é determinado, apoiado e reforçado pelas universidades. Porque consentiram os conservadores esta tirania intelectual?”

Ninguém levou a sério, porque as universidades são o motor da inovação que torna a América líder nas áreas de ponta da economia do conhecimento. Como lembra Fareed Zakaria, os EUA representam cerca de 4% da população mundial e 25% do seu produto interno bruto, mas têm, conforme as classificações, entre 64% e 72% das 25 melhores universidades do mundo.

O GUIÃO HÚNGARO

Como Anne Applebaum explicou em “Crepúsculo da Democracia”, os novos autoritários não precisam de abolir as instituições, basta controlarem-nas. Orbán transformou universidades públicas húngaras em “fundações privadas” geridas por aliados do regime. Foi a fachada de autonomia que garantiu a obediência.

Nos EUA, o caminho será diferente, mas o objetivo é o mesmo. E o ataque à liberdade académica usa o mantra que tantos repetiram em nome da liberdade: a ideologia de género, o politicamente correto, o “cancelamento” de tradições e o antissemitismo representado por qualquer apoio à causa palestiniana.

Quando a “elite” liberal resiste ou contraria a política do governo, já sabe que contará com retaliações de Trump, que promete vingar os anos em que os conservadores se sentiram oprimidos pelo discurso das elites: se as universidades respondem em tribunal, o Departamento de Justiça e Segurança Interna ordena a punição do respetivo escritório de advogados.

Nem o poder judicial escapa, com Trump a exigir o afastamento do juiz que tentou bloquear centenas de deportações ilegais. Faz sentido: o sistema que os homens do dinheiro combatem é o que nos tem defendido do seu poder. Como explicou a juíza Marjorie Rendell, a justiça não tem o poder da espada ou da bolsa, depende apenas do respeito. Sem ele, nenhum Estado de Direito resiste.

Tribunais, imprensa e universidades. Trump cumpre à risca o guião seguido na Hungria e, antes dela, na Polónia.

O argumento é sempre o mesmo: não pode ser um poder não eleito a limitar a vontade popular. Para o braço de ferro com a Justiça, escolheu as deportações. Primeiro, divide-se o mundo entre o “povo puro” e uma “casta corrupta”, legitimando o ataque às instituições que contrariem a expansão do poder da verdadeira casta. Depois, transformam-se os adversários políticos em inimigos existenciais. Por fim, criam-se realidades alternativas, alimentadas por redes sociais e canais de propaganda, onde factos deixam de importar e tudo pode ser justificado.

CENSURAR O PENSAMENTO E A MEMÓRIA

Seguindo o guião de todos os movimentos autoritários, reescreve-se a realidade. Palavras como “igualdade”, “diversidade”, “racismo”, “discurso de ódio” e, pasme-se, “mulher” são apagadas de sites governamentais. Trabalhos académicos são censurados por incluírem termos “proibidos”. Currículos escolares são vetados. Os académicos tentam contornar o uso de certos temas para não verem o financiamento dos seus projetos automaticamente bloqueado. As palavras moldam a realidade e, na América “grande outra vez”, as mulheres e as minorias devem saber o seu lugar.

Isto, para alem de um movimento de censura de livros, liderados por grupos organizados, que recebem dinheiro da direita política. Só no ano letivo de 2023-2024 foram banidos 10 mil livros das escolas e bibliotecas. Como explicou o professor Peter Carlson, da Green Dot Public Schools, grande parte “aborda diretamente a identidade e não se conforma com a identidade hegemónica”. Mas a censura dos olhos das crianças vai até livros como “Maus” e “Diário de Anne Frank”, que nos habituámos a ter como fundamentais na nossa formação cívica. Não se trata apenas de inviabilizar grupos, mas de apagar parte da história.

Nos últimos anos, fui fazendo advertências quanto à esquerda que se deixa entrincheirar em identidades fechadas e incompreensíveis, desprezando a opressão e a desigualdade económica e social. Considerei e considero que a deriva identitária da esquerda resulta da sua própria desistência, uma cedência à lógica individualista do neoliberalismo, onde a biografia pessoal substitui o programa político, a culpa substitui a persuasão, as minorias cada vez mais estreitas substituem a maioria social trabalhadora.

Mas nunca me enganei no alvo, que, na cedência à agressividade conservadora, permitiu que qualquer sentido de decência e justiça levasse com o ferrete “woke”. Sempre soube que a guerra cultural reacionária fingia lutar pela liberdade de expressão sem nunca ter querido menos do que apagar a emergência de novas vozes. Dividir poder provoca sempre ressentimento. E a doutrinação misógina de rapazes adolescentes, alimentada por uma indústria conservadora de youtubers e podcasters, criou o exército de apoio ao retrocesso civilizacional a que assistimos. E esse retrocesso nunca é responsabilidade dos que se libertam e exigem o seu quinhão de poder e visibilidade.

A VITIMIZAÇÃO DO PODER

Nas duas últimas décadas, ouvimos humoristas milionários queixarem-se, em programas da Netflix, da censura que os oprimia. Sentiam-se cancelados por haver quem, no uso da sua liberdade, se indignava, com ou sem razão, por eles dizerem o que sempre se disse. Não sabiam que a resistência à censura tem menos glamour e proveito. Se querem saber o que é, aqui a têm. Não costuma vir de minorias perseguidas, mas de quem tem a bolsa e a espada para a impor. É por ela ser brutal que o ruído do protesto é menor.

A resistência a quem realmente tem o poder de realmente censurar paga-se realmente cara. Por isso já não ouvimos os que se agitavam contra a “brigada do politicamente correto” e os que viam em qualquer boicote estudantil uma ameaça à sua liberdade. Já não têm de enfrentar milhares de puritanos indignados que apelam a boicotes nas redes sociais. Agora é o poder que nunca deixou de o ser a usar o aparelho do Estado para voltar a calar os que foram calados por milénios.

Agora é a sério e, por isso, calaram-se os queixumes com a “cultura de cancelamento”. É claro que estes idiotas úteis nunca apoiaram Trump. Até o detestam. Apenas foram justificando a ascensão da barbárie de quem nunca deixou de ter o poder sobre os excessos de quem nunca o teve. É por isso que são idiotas. Convencidos de que combatiam a elite, aliaram-se à elite que dispensa a democracia para perpetuar o poder que nunca quis largar. É por isso que lhe foram úteis.»


Dois Moedas?

 


2.4.25

Mais perfume

 


Frasco de perfume de vidro camafeu. 
Émile Gallé.


Nelma Serpa Pinto

 


Entrevistou ontem, na SIC N, Pedro Nuno Santos e adoptou uma versão 2.0 do que José Rodrigues dos Santos fez com Paulo Raimundo na RTP. Só faltou piscar o olho à saída.

Não sei se está planeado que enfrente Mariana Mortágua, mas tome um calmante e faça melhor os TPCs. Pode sair o tiro pela culatra no seu estatuto de estrela ascendente na SIC.

02.04.1976 - 49 anos e uma Constituição

 


Naquele 2 de Abril, os deputados da Assembleia Constituinte, eleitos em 25 de Abril de 1975, deram por concluída a elaboração da Constituição. Esta foi então aprovada com os votos a favor dos partidos representados no Parlamento, com a excepção dos 16 deputados do CDS que votaram contra.




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Mortágua e os debates

 


Se fosse eu a decidir, ia Francisco Louçã ou Fernando Rosas.

Le Pen: guardem os foguetes que as notícias não são boas

 


«Não conheço a legislação em causa e não me vou envolver no debate jurídico em torno da condenação de Marine Le Pen. Olhando de fora, tenho dúvidas quanto à pena de prisão num caso desta natureza, e ainda mais quanto à inelegibilidade, que deveria ser absolutamente excecional. Essas dúvidas só são agravadas pelo facto de a sua aplicação ter lugar antes de o processo transitar em julgado. Imagino que isto corresponda à lei francesa, mas recordo que François Fillon teve um caso que, sendo menor na sua dimensão, até era mais grave em profundidade: a sua mulher era dada como falsa assessora. Perdeu as eleições presidenciais por isso. Não foi impedido de concorrer.

Claro que os sistemas legais são diferentes, mas nada disto tem que ver com a situação de Donald Trump ou de Jair Bolsonaro. Sempre achei um erro afastar Trump das eleições através nos tribunais por questões que não fossem a invasão do Capitólio. O mesmo se aplica a Bolsonaro. É a tentativa de golpe de Estado que o devia impedir qualquer um de concorrer. Nestes casos, a justiça deve ser implacável. Quem recusa os resultados eleitorais e o poder democraticamente sufragado viola o fundamento das eleições e, assim sendo, não pode participar no jogo.

Seja qual for o entendimento jurídico, não vejo razão para celebrar as consequências políticas desta sentença. Tem tudo para ser trágico. E com o tempero, especialmente apetitoso para a extrema-direita francesa, de a acusação vir de Bruxelas. Não é por acaso que Jean-Luc Mélenchon, apesar de sublinhar a gravidade da condenação, veio contestar a inelegibilidade. Primeiro, porque espera conquistar-lhe alguns votos. Depois, porque sabe que esta decisão pode ser um presente envenenado para a democracia.

Jordan Bardella é considerado, por 59% dos eleitores da União Nacional, melhor líder do que Marine Le Pen, que tem a preferência de apenas 37%. Junte-se a esta preferência a vitimização face a um ataque vindo de fora, e temos o caldo perfeito.

O que me deixa triste é ver a mesma Europa que se mostra incapaz de regular as redes sociais ou afastar a Hungria da UE em permanente busca de atalhos para travar a ascensão da extrema-direita. Atalhos que a própria não deixará de aproveitar. Isto não vai correr bem. Se Le Pen não concorrer, como é quase certo que não concorra, Bardella poderá fazer uma campanha ainda mais forte. Se concorrer, Le Pen irá a votos como vítima perseguida por Bruxelas. Ache cada um o que achar desta sentença, não vejo razões para lançar foguetes.

Nisto, só tem graça uma coisa: ouvir o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, dizer que os caminhos da Europa são cada vez mais a “violação das normas democráticas”. De facto, não é tão eficaz como o encarceramento seguido de “acidente” de Alexei Navalny. Seria mais limpo atirar a senhora de uma varanda. Nisso, as democracias europeias ainda têm muito a aprender com Putin.»


1.4.25